
Trump lá conseguiu: os Estados Unidos injectaram 8,9 mil milhões na Intel e ficaram com quase 10 % da mega-empresa. Chamam-lhe “investimento estratégico”, mas parece mais um negócio à antiga: pressão pública, ameaça de demissão do CEO e voilà – Washington entra no capital da maior fabricante de processadores x86.
Lip-Bu Tan, CEO da Intel, tem andado zonzo depois de Trump ter exigido publicamente a sua demissão, acusando-o de ligações à China. Resultado? Washington não só injecta capital através do CHIPS Act e do programa Secure Enclave como transforma subsídios em participação accionista. Os Estados Unidos são agora sócios da Intel sem gastar (tecnicamente) um dólar.
E agora, quem vai ousar fugir ao x86?
A pergunta que se coloca é óbvia: que fabricante de PCs vai arriscar apostar em ARM, AMD ou até soluções próprias quando o Tio Sam está sentado à mesa da Intel? A pressão não precisa de ser dita em voz alta. Basta perceber – o que não é difícil actualmente – como os gangsters pensam e actuam: “Ai queres continuar a vender nos EUA? Então talvez seja boa ideia escolheres Intel para os teus portáteis.”
E isso é deveras preocupante. Porque se a Qualcomm começa finalmente a mostrar os dentes com os seus Snapdragon X, e se a Apple já provou com os M1/M2/M3 que o ARM não é um devaneio mas um caminho viável, o futuro poderia ser diverso, competitivo, até livre. Mas com os cofres e a Casa Branca do lado da Intel, o risco é que a indústria recue para o “conforto” do monopólio.
A Europa: sempre a correr atrás
E nós, na Europa? Continuamos a sonhar com “soberania tecnológica” ao mesmo tempo que compramos tecnologia feita do outro lado do Atlântico ou em Taiwan. Se amanhã Washington decidir que determinados países europeus não podem ter acesso aos chips mais avançados da Intel, ficamos com quê? Com menos escolhas, menos concorrência e preços mais altos. E, não, o Magalhães não é uma possível solução…
É um déjà vu. A Europa fala muito, investe pouco e fica sempre à mercê. E a cada investida de Trump, percebemos melhor o quão frágil é depender quase exclusivamente de tecnologias que podem ser transformadas em armas diplomáticas de um dia para o outro.
Apple, ARM e a ironia do destino
E a Apple? Até o seu ar de “somos diferentes e tal” acaba refém. Tim Cook tem sido mestre em dançar com os poderes de Washington, mas também não pode escapar à política de Trump. Se a administração decidir que “America First” é sinónimo de Intel first, a Apple fica encurralada entre os seus chips ARM e a pressão da Casa Branca. De nada serviu o beija-mão de Cook com um presente em ouro maciço entregue ao homem mais idiota do mundo, muito pelo contrário, esse acto fez-lhe perder MUITOS clientes e fãs da maçã que agora dizem que está podre.
Não deixa de ser irónico: a Apple provou que ARM pode derrubar décadas de domínio x86 e abriu a porta a um novo paradigma. Mas, tal como as multinacionais que se vergam a regulamentos para não perder o acesso à China, pode ter de engolir compromissos que traem a sua própria visão.
O que está em jogo?
O problema é que a inovação precisa de concorrência. Vimos progressos fantásticos quando a Intel e a AMD lutavam palmo a palmo. Vimos revolução quando a Apple saltou para ARM e obrigou o mercado a repensar o futuro. Se agora um dos gigantes é blindado pelo governo dos EUA, onde fica o incentivo para inovar?
Na melhor das hipóteses, continuamos a ter avanços, mas ditados por calendários eleitorais e agendas de Washington. Na pior, entramos numa era onde a liberdade tecnológica global é mais uma vítima da política americana.
E agora, Trump?
Este negócio Trump-Intel não é apenas um “grande negócio para a América”, como ele próprio lhe chamou. É um sinal claro de que os processadores deixaram de ser apenas chips: são armas.
Para os consumidores, pode significar menos escolhas e preços mais altos. Para a Europa, é um murro no estômago e mais um alerta para investir a sério em independência tecnológica. Para a inovação global, pode ser o início de uma era onde as empresas deixam de responder às necessidades dos utilizadores e passam a responder ao medo de perder contratos com Washington.
No fim, a pergunta que fica é: será isto apenas mais uma explosão da MAGA ou o primeiro acto de uma nova ordem tecnológica mundial? Só sei que, no fim, quem se lixa é mesmo o mexilhão *.
* É uma metáfora para a vulnerabilidade de pessoas que são presas fáceis em situações adversas, sem capacidade de reacção ou protecção.





