Fan Shisan, um criador de conteúdo de Chengdu, desenvolveu espadas voadoras controladas por gestos que transformam fantasias de cinema chinês em tecnologia funcional. Fan consegue comandar simultaneamente mais de 10 drones em forma de espada apenas com movimentos das mãos, materializando cenas típicas de dramas xianxia onde heróis imortais voam sobre espadas mágicas.
O Que São as Espadas Voadoras de Fan Shisan
Desde Novembro de 2024, Fan tem vindo a desenvolver o primeiro sistema de espadas voadoras com sensores de movimento, criando drones oblongos equipados com propulsores na ponta, no punho e nos lados do guarda-mão. O sistema responde em tempo real aos gestos do operador: levantar as mãos dramaticamente faz o enxame elevar-se em uníssono, enquanto movimentos de empurrar e puxar alteram a direcção em pleno voo.
O percurso de Fan começou em 2020 com vídeos de artes marciais, usando uma colecção de mais de 40 espadas e facas artesanais. Antigo empregado de hotel reconvertido em engenheiro autodidata, passou de criar conteúdo temático para desenvolver hardware funcional que replica estética wuxia – o género de artes marciais chinesas que popularizou a ideia de mestres voadores.
Como Funciona a Tecnologia de Controlo Gestual
A tecnologia baseia-se em sensores de movimento integrados num dispositivo vestível que o operador usa na palma e no indicador da mão esquerda. Este equipamento detecta gestos e transmite comandos direccionais para as espadas-drone através de comunicação sem fios, permitindo controlo coordenado de múltiplas unidades simultaneamente.
Cada espada funciona como um quadricóptero modificado, com arquitectura de propulsão adaptada à geometria alongada. A configuração inclui motores nas extremidades e pontos médios da estrutura, criando vectores de impulso que compensam a forma irregular e mantêm estabilidade durante manobras.
Desafios Técnicos da Geometria Irregular
Ao contrário dos drones convencionais com estrutura simétrica em cruz, a geometria de uma espada cria problemas críticos de estabilidade e balanceamento. Fan resolveu-os empiricamente através de iterações sucessivas: primeiro espadas pequenas para testar conceitos, depois controlo coordenado de múltiplas unidades, finalmente a versão tripulável.
A espada tripulável exigiu 24 ventiladores – inicialmente tentaram 20, mas o impulso era insuficiente. Este processo de tentativa e erro, sem investigação académica formal nem financiamento corporativo, exemplifica engenharia grassroots típica de ecossistemas maker asiáticos.
Evolução do Projecto: De Vídeos a Hardware Funcional

Com uma equipa de quatro pessoas especializadas em design, produção, testes e filmagem, Fan passou dois meses a construir a primeira espada tripulável. O aparelho consegue manter uma pessoa no ar durante mais de três minutos, funcionando como hoverboard vertical com estética de filme de época.
A progressão técnica seguiu três fases distintas: miniaturização inicial para validar aerodinâmica, coordenação de enxames para testar sistemas de controlo distribuído, e finalmente escalamento para versão tripulável que suporta peso humano. Cada fase informou a seguinte, permitindo refinamento gradual sem recursos significativos.
Aplicações Práticas e Planos Futuros
Fan recebeu propostas de colaboração de equipas de produção cinematográfica e televisiva para criação de adereços e design técnico , indicando aplicações imediatas em efeitos visuais e coordenação. A tecnologia pode servir produção audiovisual, eventos temáticos e demonstrações culturais.
Inteligência Artificial e Controlo Autónomo
Os planos futuros são mais ambiciosos. Fan pretende adicionar controlo por voz alimentado por inteligência artificial e desenvolver uma “inteligência espiritual” que permita às espadas ajustarem automaticamente o modo de voo baseando-se nos movimentos do operador. O objectivo declarado é concretizar a visão wuxia de “dez mil espadas como uma” – a capacidade lendária de mestres controlarem exércitos inteiros de lâminas voadoras.
Esta ambição enfrenta obstáculos técnicos de latência, interferência electromagnética e gestão de enxames em larga escala, mas demonstra direcção estratégica clara: evolução de controlo manual para coordenação semi-autónoma e eventualmente sistemas totalmente autónomos que interpretem intenção através de machine learning.
Contexto Cultural: Tecnologia ao Serviço da Mitologia
Fan espera que os seus vídeos permitam a audiências internacionais apreciarem mais profundamente a cultura tradicional chinesa, revelando consciência sobre soft power tecnológico. Os dramas xianxia são fenómeno massivo na China com raízes literárias nos romances wuxia clássicos. Transformar esse imaginário em realidade tangível tem peso simbólico considerável.
Onde makers ocidentais tendem a focar-se em aplicações utilitárias ou arte conceptual desligada de tradição popular, Fan opera numa intersecção culturalmente carregada: tecnologia ao serviço de mitologia viva, com objectivos simultaneamente nostálgicos e futuristas. Esta abordagem confere significado que transcende demonstração técnica pura.
Comparação com Iniciativas Ocidentais
A diferença face a projectos europeus e americanos equivalentes é notória. Enquanto a Europa debate regulamentação de drones e preocupações de privacidade – legítimas, mas frequentemente paralisantes -, makers asiáticos redefinem possibilidades com a mesma tecnologia, ancorados em contextos culturais que conferem urgência aos projectos.
Portugal, com tradição marítima e literária rica, não tem equivalentes locais deste tipo de projecto. A ausência revela lacunas no ecossistema: falta de articulação entre património cultural e inovação tecnológica, escassez de comunidades maker robustas, e dependência excessiva de validação institucional em vez de experimentação prática.
Impacto e Limitações da Tecnologia
As limitações práticas são evidentes: autonomia de voo reduzida, controlo gestual que requer movimentos amplos e deliberados, e obstáculos óbvios para escalamento a “dez mil espadas”. Mas isso é secundário face ao impacto cultural — o vídeo viral existe, a tecnologia demonstrou viabilidade de conceito, e a narrativa ressoa universalmente.
Fan Shisan não inventou tecnologia radicalmente nova. Sensores de movimento, controlo gestual e drones coordenados existem há anos. Mas combinou-os de forma culturalmente relevante, tecnicamente competente e visualmente espectacular, provando que inovação não é apenas descoberta científica: é imaginação aplicada, execução persistente e capacidade de transformar mitologia em mecânica funcional.
Em suma
As espadas voadoras de Fan Shisan representam síntese entre tradição cultural e capacidade técnica, demonstrando que inovação significativa emerge quando tecnologia serve narrativas que já existem no imaginário colectivo.
A questão para Portugal e Europa não é se conseguimos replicar tecnicamente – conseguimos -, mas por que razão não articulamos o nosso próprio património cultural com ferramentas contemporâneas, e o que falta no ecossistema para transformar essa inércia em movimento.
Enquanto debatemos regulamentos, outros constroem futuros alternativos com as mesmas peças que temos disponíveis, apenas organizadas sob lógica diferente.





